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A CONEXÃO RÁPIDA, CRÍTICA, ENTRE A IMAGEM E A PALAVRA.

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Flor Bela de Alma da Conceição Espanca


FLORBELA ESPANCA, nasceu em Vila Viçosa a 8 de Dezembro de 1894 e faleceu em Matosinhos a 8 de Dezembro de 1930 com 36 anos.  Foi poetisa e autora de vários contos. Depois de concluir os estudos liceais em Évora, frequentou a Faculdade de Direito de Lisboa. A abordagem crítica da sua obra poética, marcada pela exaltação passional, tem permanecido demasiado devedora de correlações, mais ou menos implícitas, estabelecidas entre o seu conturbado percurso biográfico. Na minha opinião foi uma mulher que viveu “um tempo fora do tempo”, talvez em Portugal numa época vitoriana tardia. Seria hoje diferente, embora surgissem, como surgem ainda, contra, algumas opiniões conservadoras. Teve uma vida sofrida mas intensa de emoções, amor/desamor/paixão.

Lembro-me que na minha juventude de Liceu (período conservador) a leitura de Florbela Espanca era proibida a sectores femininos juvenis das elites estudantis nas instituições de origem religiosa.
Quem foi realmente Florbela?
Ninguém é definível numa só dimensão, num só conjunto de qualidades, todo o ser é uma intersecção de adjectivações diferentes e até opostas. No caso da poetisa tem a particularidade de ser ela própria a evidenciá-lo, permanentemente e sem constrangimentos. Florbela estimula e antecede o "movimento de emancipação literária da mulher" que romperá "a frustração não só feminina como masculina, das nossas opressivas tradições patriarcais". Na sua escrita é notável, "a intensidade de um transcendido erotismo feminino", tabu até então, e ainda para além do seu tempo, em dizeres e escreveres femininos. Do simbolismo ao modernismo, enumerando várias tendências como "método de exposição pedagógica" inclui-se Florbela num grupo que se designa como "Outros poetas". Qualificam-na como "sonetista com laivos esteticistas" e "uma das mais notáveis personalidades líricas", embora vítima de uma sociedade puritana e dogmática, foi votada ao ostracismo clerical para além do seu tempo. O seu egocentrismo, sedento de glória, que não retira natural beleza à sua poesia, é por demais evidente para não ser referenciado praticamente por todos. Na sua escrita há um certo número de palavras em que insiste incessantemente. Antes de mais, o “EU”, presente, dir-se-á, em quase todas as peças poéticas. Largamente repetidos vocábulos reflexos da paixão: alma, amor, saudade, beijos, versos, poeta, e vários outros, e os que deles derivam. Escritos de âmbito para além dos que caracterizam essa paixão não são abundantes, particularmente na obra poética, salvo no que se refere ao seu Alentejo. Não se coloca socialmente, sempre como observadora distante, mesmo quando tal parece, exterior a factos, ideias ou acontecimentos. Curiosa é a posição da poetisa quanto ao casamento. Mau grado dizer que a única desculpa que se atribui é ter casado por amor (!!!), várias vezes se afirma inteiramente contra, apesar de ter contraído matrimónio por três vezes... Entre os poetas seus preferidos destacam-se António Nobre, Augusto Gil, Guerra Junqueiro, José Duro e outros de correntes próximas. Interessa-se também por Antero de Quental. Pela não publicação das suas obras, ora se mostra descontente por não encontrar editor para os livros que, após os dois primeiros, deseja dar a público, ora pretende mostrar-se desinteressada, mesmo desdenhosa pelo facto, embora o desgosto seja latente. Passados perto de setenta anos sobre a sua morte, na transição do nosso século, foram falados comportamentos menos ortodoxos em relação à moral sexual do seu tempo. Algumas expressões emocionais um tanto excessivas para a época, embora não exclusivas da escritora, ajudaram a suspeita. Lembramos a sua correspondência e as referências ao irmão, Apeles Demóstenes da Rocha Espanca que a 6 de Junho de 1927, faleceu vítima da queda do hidroavião que pilotava sobre o Tejo. Florbela, nos seus excessos verbais parecem não passar disso mesmo, imoderação para exprimir uma paixão; aqui, exaltação fora do comum de um amor fraternal, talvez excessivo, mas que não destoa do falar dos seus sentimentos. Esses limites alargados na expressão do amor, da amizade e das afeições, são uma constante expressiva e nada mais do que isso... Florbela poetisa não pode ser separada da sua condição de mulher, das suas paixões, da sua maneira de ser, da sua vida, das suas contradições, humildade e orgulho, preconceitos, da sua presença e ausência, dos seus amores e desamores. Florbela surge desligada de preocupações de conteúdo humanista ou social, inserida no seu pequeno mundo burguês, não manifesta interesse pela política ou pelos problemas sociais. Dizia-se conservadora. Quando ocorreu a revolução de 5 de Outubro de 1910, Florbela estava há dois dias com a família em Lisboa, mas não se conhecem comentários seus à vivência desse dia. A sua única preocupação é ela própria, o amor, a paixão... O querer e o não querer. A par duma vida pouco comum para os cânones vigentes - dois divórcios e três casamentos em cerca de quinze anos, essa relação mulher-paixão e a exaltação ao exprimir-se sobre si própria, podem ter contribuído para conceitos menos próprios da sua vida afectiva. Repare-se neste começo de um dos seus mais conhecidos sonetos:

          Eu quero amar, amar perdidamente!
          Amar só por amar: Aqui... além...
          Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
          Amar! Amar! E não amar ninguém!
No final da quadra seguinte:
          Quem disser que se pode amar alguém
          Durante a vida inteira é porque mente!


Na época, conservadora como hoje a classificamos, leva a crer muito provavelmente, num viver que nos factos se coadunará e não se distanciará muito dos preconceitos morais e sociais, ainda agora vigentes. A sua escrita diverge da concepção da poesia dos grupos de Orfeu, Presença e outras tendências do designado "Modernismo", que emergem como as grandes referências literárias da época, das quais Florbela parecerá arredada.
Florbela lembra claramente, o que a preocupa é o amor, e os ingredientes que romanticamente lhe são inerentes: a solidão, a tristeza, a saudade, a sedução, a evocação da morte, entre outros... E o desejo libido, mesmo quando trata outros temas. Olhemos uma das quadras do soneto que intitulou Toledo:
          As tuas mãos tacteiam-me a tremer...
          Meu corpo de âmbar, harmonioso e moço,
          É como um jasmineiro em alvoroço,
          Ébrio de Sol, de aroma, de prazer!


Florbela tentou o suicídio por duas vezes, em Outubro e Novembro de 1930, na véspera da publicação da sua obra-prima, Charneca em Flor. Após o diagnóstico de um edema pulmonar, a poetisa perdeu o resto da vontade de viver. Não resistiu à terceira tentativa de suicídio. Faleceu em Matosinhos, no dia do seu 36º aniversário. A causa da morte foi sobredose de barbitúricos embora na certidão da autópsia conste “edema pulmonar”.

ALGUNS CONTOS DA SUA AUTORIA:
Amor de Sacrifício;
Mulher de Perdição;
Amor de Outrora;
O Regresso do Filho;
As Orações de Soror Maria da Pureza;
O Sobrenatural, etc.

A sua descrição do amor, sensual, sofrido de paixão liberta-nos a imaginação de aforismos preconceituosos de um erotismo excessivo no seu tempo, a não ser que mentisse e apenas descrevesse o que nunca teve e mais desejasse:
  UM POEMA DE SUA AUTORIA:

Frémito do meu corpo a procurar-te,
Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,
Doído anseio dos meus braços a abraçar-te,

Olhos buscando os teus por toda a parte,
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel,
Que nada existe que a mitigue e a farte!

E vejo-te tão longe! Sinto tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que não me amas...

E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas...

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"


LIVRO DE SÓROR SAUDADE:
 

OS AFRESCOS DE POMPEIA


Os Arqueólogos da era vitoriana (1817) que fizeram escavações sistemáticas nas antigas ruínas de Pompeia ficaram chocados com o que viram. Entre os belos afrescos e obras de arte encontraram muitas pinturas e esculturas que retratavam sexo explícito. Escandalizadas com a sua natureza libidinosa, as autoridades, encerraram-nas e guardaram-nas em museus secretos retirando-as ao conhecimento público. Para classificar esses artefactos explícitos, cunharam, pela primeira vez, o termo “pornografia” (do grego "pornē", prostituta, e "grafos", escritos sobre), abertos definitivamente ao conhecimento no ano 2000.
Hoje a pornografia, é definida como “figuras, fotografias, filmes, espectáculos, obras literárias ou obras de arte, relativos a assuntos inerentes, ou que tratam de coisas ou assuntos (literatura, contos poesia etc.,) ditos obscenos ou licenciosos, capazes de motivar ou explorar o lado sexual libidiniso do indivíduo."
Actualmente a pornografia  - erotismo e sensualidade - está em toda parte e parece ser aceite pela maioria esclarecida. Outrora restrita a “cine pornos” e zonas de prostituição, hoje ocupa um lugar importante em muitas comunidades. Há os que promovem a pornografia como uma forma de “revitalizar” casamentos monótonos. Certa escritora diz: “Ela estimula fantasias sexuais. Ensina a pessoa a ter prazer no sexo.” Para outros, a pornografia incentiva a tratar o sexo com franqueza, sem tabus. “A pornografia beneficia as mulheres”, diz a escritora Wendy McElroy, a libertar preconceitos sociais que há muitos anos as têm subjugado, pelos dogmas das religiões e pelos enraizados conceitos sociais vitorianos, até aos nossos tempos. 


http://sensualitepourvous.blogspot.pt/p/diferencas-entre-sensualidade-erotismo.html

MANHÃ PERFUMADA




Na claridade da manhã com a aragem surgiste fresca, resplandecente,
Passaste como pétala de uma rosa afagada pelo orvalho da alvorada.
Remirei de soslaio os teus seios, libertos, quase desnudos pelo decote,
que sob o teu vestido balançavam ao dançar esbelto das tuas ancas.
Onírico poema que me liberta, mas sucumbe em inebriante ilusão.   
Sublime tentação do meu olhar furtivo, reprimido sonho do desejo.
Etéreo, airoso perfume, como brisa matinal que inicia este dia luminoso.


José Douradinha, in matutina, 25/03/2012

IMP•C•IVLIVS•CÆSAR•DIVVS - DICTATOR PERPETUUM


Júlio César percorreu uma parte considerável do caminho na direcção da monarquia, ostentando os cargos republicanos de cônsul por quatro vezes e ditador por cinco vezes; conseguindo ser nomeado "ditador vitalício" (dictator perpetuum) em fins de 45 a.C.; era um cargo político da República Romana, criado em 501 a.C., preenchido apenas em condições excepcionais, sendo portanto uma magistratura extraordinária, isto é, fora do cursus honorum. Ditador Perpétuo também chamado de dictator in perpetuum, era o cargo ocupado por Júlio César, de 26 de Janeiro ou 15 de Fevereiro do ano 44 aC., até à sua morte em 15 de Março. Ao abandonar as restrições de tempo normalmente aplicados no caso da romanorum dictatura, o tempo elevou a ditadura de Júlio César para a esfera monárquica dado que nomeou para seu sucessor Octaviano filho de Atia Iuliae sua sobrinha por parte da irmã Júlia Cæsonia. Ao contrário da percepção popular, Júlio César não era um ditador por cinco anos; ele ocupou o cargo durante onze dias em 49 aC em consequêcia da realização de eleições, quer como commissione dictator ou ditador rei gerundae causa, “dever de gerir a vitória” e novamente para o ano 48/47aC. Em 46 aC, ele foi eleito ditador para os próximos dez anos. Em algum do tempo referido, entre Janeiro e Fevereiro de 44 aC., foi nomeado ditador perpétuo, mas foi assassinado dentro de dois meses depois disso, nos idos de Março.
Perpétuo ditador é muitas vezes uma expressão mal interpretada como "ditador vitalício", que ignora o facto de que o título não implicava que Júlio César nunca mais renunciaria ao cargo, porquanto a ditadura "perpétua" era parte do Senado que decretava honras, honorabilidade por direito de Júlio César, assim como a sua apoteose planeada como Divus Iulius, um complexo de homenagens destinadas à eternidade e divindade. Júlio César foi assassinado em parte porque queria retirar aos senadores romanos os excessivos privilégios, o status que detinham na curia perante os demais, para assim poder distribuir pelo povo melhores regalias. Insurgiu-se contra os interesses do poder subversivo instituído e foi vitíma de "amigos" que sob violência, sempre aludindo a acto revolucionário, acabaram por pagar com a vida a vil trama.


O segundo triunvirato durou dez anos, foi estabelecido em 43 a.C., na República Romana, entre Marco António, Octávio e Lépido (Marcus Æmilius Lepiduse prolongou-se até 33 a.C.. Ao contrário do primeiro triunvirato, um acordo informal entre Júlio César, Pompeu o Grande e Marco Licínio Crasso, este segundo triunvirato foi uma aliança política formal com o nome oficial de Triunviros para a Organização do Povo (em Latim: Triumviri Rei Publicae Constituendae Consulari Potestate), legislado pela Lex Titia e aprovado pela Assembleia do Povo, conferindo poderes universais aos três homens por um período de cinco anos. A constituição do segundo triunvirato e atribuição de poderes excepcionais a Marco António, Octaviano e Lépido justificou-se no período da crise, sem precedentes, que se seguiu ao assassinato de Júlio César. Tinha Octaviano então cerca de 20 anos, filho adoptivo e herdeiro do ditador. Marco António e Lépido eram dois dos comandantes de maior confiança de Júlio César. Todos estes triúnviros  ambicionavam poder e vingança. A primeira acção dos triúnviros foi a de eliminar todos os homens que conspiraram passiva ou activamente contra César – Cícero o filósofo foi uma das vítimas – e perseguir Bruto (Marcus Junius Brutus) e Cássio que entretanto se haviam refugiado na Grécia. Em Roma a 29 de Novembro de 43 aC., cerca de 300 senadores e 2000 cavaleiros foram capturados e mortos por toda a península itálica. Lépido (pontifex maximus) que era uma figura de consenso e sem grande ambição política, casado com Júnia Secunda filha de Décimo Júnio Silano e Servília Cepião mãe de Brutus. Octavianus e Marco António odiavam-se e conspiravam um contra o outro desde a formação do triunvirato. Em 38 a.C. o acordo foi renovado por mais cinco anos, mas as relações entre os três estavam longe de serem amigáveis. Lépido foi afastado do poder e exilado de Roma na sequência de uma manobra política falhada, enquanto Marco António, estacionado com o exército no Egipto atacava Octaviano com a ajuda de Cleópatra. Finalmente em 33 a.C., o triunvirato chegou ao fim e Marco António e Octaviano entraram em guerra aberta que haveria de terminar na Batalha de Áccio (31 a.C.) e no suicídio simultâneo de Marco António e Cleópatra. Com os seus pares afastados do poder, Octavianus ficou finalmente sozinho e livre para governar Roma. Em 27 a.C. foi-lhe atribuido o título de Augusto e iniciou o Império Romano com a dinastia Júlio-Claudiana que terminou com Nero (Nero Claudius Cæsar Augustus Germanicus; nasc. Anzio, 15 de Dezembro de 37 d.C. com o nome de Lúcio Domício Enobardo - Fal. Roma, 9 de Junho de 68), o último dos Césares.

Mapa da República Romana durante o Segundo Triunvirato (32 a.C.): A área em verde escuro era o sector sob poder de Octávio; a área em azul escuro estava sob o poder de Marco António e a área em azul claro sob poder de aliados ou vassalos de Marco António.

A MORTE DE SÉNECA:
Quando nos referimos a Nero, imperador Romano não podemos esquecer, inevitavelmente, Lucius Annaeus Seneca conhecido como Séneca, o jovem, homem político, filósofo e escritor romano, nasceu em Córdova - Hispânia, aproximadamente em 4 a.C. e faleceu em 65 d.C.. Fez os seus estudos em Roma sob a direcção de um mestre pitagórico e de um outro estóico. Exerceu durante algum tempo a profissão de advogado mas tornou-se rapidamente homem de letras e cortesão. Já era célebre quando cai em desgraça junto da imperatriz Messalina, primeira esposa de Cláudio. Esteve exilado durante 8 anos, na Córsega, tendo sido chamado à corte de Cláudio em 49 pela segunda esposa deste, Agripina, que lhe confiou a educação do seu filho Nero. No entanto, anos mais tarde, Séneca volta a cair em desgraça e, implicado na conjuração de Pison, (plano contra a vida do devasso imperador)  morreu cortando as suas próprias veias por ordem de Nero.
Analisemos alguns pontos importantes das doutrinas de Séneca sobre a Lógica e Ética.
A lógica assenta no princípio fundamental da teoria do conhecimento das doutrinas estóicas, ou seja: singularidade do objecto, materialidade (ou corporeidade) de tudo o que existe.
São incorpóreos apenas o tempo, o espaço e o vazio, consideramos como lugares do real e o significativo, ou a palavra com que o objecto é significado. A virtude, a Sabedoria e o Bem, bem como os seus contrários, são corporais.
Todas estas ideias gerais são dotadas de propriedades físicas, de forma que a lógica tende, no estoicismo romano, a transformar-se em física. A própria psicologia humana torna-se em um caso particular da física.
Conforme as doutrinas estóicas, a nossa Alma é também corpórea pois, se assim não fosse, como poderia ela actuar sobre o nosso corpo?
Séneca diz que ela consiste num sopro subtil e vivo – o spiritus que não é outra coisa que a alma do Universo, ou substância contínua, não molecular, animada por uma força expansiva indefinida que mantém a coesão das coisas complexas, entre as quais as do nosso corpo e de tudo o que forma o Universo.
Sobre a imortalidade da Alma, analisemos o seguinte texto que faz parte da Consolação, a Márcia:
«Isto não é senão a imagem de teu filho que morreu, um reflexo bem pouco semelhante! Ele, é eterno, livre deste fardo que lhe era acrescentado e entregue enfim a ele próprio. Tudo do que tu vês rodeado, esses ossos, estes músculos, este invólucro da pele, nosso rosto, as mãos que nos servem, tudo o que se encerra em nós, são os laços de prisão e as trevas da Alma. Esta é nisto esmagada, oculta, maculada. Isto é o que a separa da Verdade, sua pátria, e a lança no seio da mentira. Sem cessar, ela luta contra esta concupiscência pesada, para não ser arrastada e presa por ela à terra. Ela se esforça em voltar ao Lugar donde ela desceu e onde a espera um repouso eterno, desde que após, o desconcerto dum modo rude, ela descobre imediatamente um Universo luminoso e puro. Por isso, não tens necessidade de correr ao túmulo do teu filho; lá jaz somente o que ela tinha de pior nele, e o que lhe era a ele próprio odioso, esses ossos, essas cinzas que não fariam mais parte do seu ser, a não ser os vestuários com os quais ele cobria o corpo. Intacto, sem nada deixar dela sobre esta Terra, ele fugiu e escapou-se completamente».
ÉTICA: Séneca teve uma concepção pessimista da vida, pois verificou, principalmente no tempo de CLÁUDIO, a versatilidade da fortuna. Uns que ainda no dia anterior se sentavam ao lado do Imperador, no dia seguinte eram condenados à morte.
No seu livro Consolação, a Márcia, diz Séneca:
«Nada há tão enganoso, como a vida humana; nada tão pérfido… A felicidade maior é não nascer.»
DITOS DE SÉNECA:
“A virtude é difícil de se manifestar, precisa de alguém para orientá-la e dirigi-la. Mas os vícios são aprendidos sem mestre”
“A deformidade do corpo não afeia uma bela alma, mas a formosura da alma reflecte-se no corpo.”

JÚLIA A FILHA LEGIMA DE JÚLIO CÉSAR


Júlia Cesáris filha de Júlio César, produto do seu primeiro casamento com Cornélia Cinila, sua filha única legitima. Júlia estava prometida em casamento a Quinto Servílio Cepião Bruto ou Marcus Junius Brutus um dos principais assassinos de César e seu filho adoptivo. Bruto pertencia a uma família aristocrata, das mais antigas de Roma, os Júnios, era filho de Servília Juniae, uma conhecida patrícia romana da época, posteriormente amante de Júlio César, seu pai era Marcus Junius Brutus Major, o velho, foi tribuno da República e o fundador de Cápua, onde a sua família detinha extensas propriedades.
Quando do primeiro triunvirado (Júlio César, Pompeu e Crasso), para selar esta aliança, Júlia casou com Pompeu no ano 59 a.C., quando tinha cerca de vinte anos e Pompeu cinquenta, já com vários filhos adolescentes de anteriores casamentos, tornando-se ela a sua quarta esposa. Embora tenha sido um casamento forjado para selar um acordo, revelou-se feliz. Do que revelam os escritos do greco-romano Plutarco, Pompeu terá revelado incumprimento dos seus deveres por causa do amor reciproco com a sua jovem esposa.   
Nas eleições dos Edís em 55 a.C., Pompeo viu-se envolvido num tumulto, no Campo de Marte, uma zona da Roma Antiga de aproximadamente dois quilómetros, inicialmente externa aos confins citadinos, e mais tarde subdividida por Augusto em duas das suas 14 regiões: a VII via Lata, agora conhecida como a Via del Corso e a IX Circus Flaminius; ficando a sua toga manchada de sangue de outra pessoa, um de seus escravos foi buscar uma toga limpa, mas Júlia que estava grávida, ao ver a toga ensanguentada, julgando que ele estivesse morto, abortou o que teria fragilizado irreversivelmente o seu organismo. Júlia faleceu no ano seguinte, quando dava à luz uma filha, ou filho, segundo outras fontes, que faleceu, por sua vez, poucos dias depois do nascimento. A morte de Júlia foi uma catástrofe para o seu marido, para o seu pai, e até mesmo para Roma; em pouco tempo a aliança entre Pompeu e César desfez-se e iniciou-se uma guerra civil.
Júlia foi sepultada no Campo de Marte, tendo o seu pai ordenado um banquete e espectáculos de gladiadores no Circus Flaminius, em sua honra, um feito raro para uma mulher da Roma Antiga.

AS 3 MULHERES CONHECIDAS DE JÚLIO CÉSAR


Cornélia Cinila (94 a.C. - 69 a.C.) era filha do cônsul romano Cina. Cornélia foi casada com Júlio César, de quem teve uma filha, Júlia, a única filha legítima de Júlio César, nascida em 82 ou 83 a.C.. Quando o ditador Lúcio Cornélio ordenou a César que repudiasse a sua mulher, este recusou, e conseguiu evitar represálias graças à intervenção de alguns amigos influentes, ligados ao partido dos optimates, uma facção conservadora de senadores romanos, muito influente na época tardia da República Romana. Cornélia faleceu em 69 a.C., com cerca de 25 anos, ao dar à luz um menino nado-morto, foi por isso pronunciado por Júlio Cesar um elogio fúnebre (laudatio funebris) como marido e pai.

Pompéia (nascida no 1 º século aC), filha de Quintus Pompeu Rufus, foi a segunda esposa de Júlio César. César casou com Pompéia em 67 aC, depois de ter servido como questor na Hispânia, de quem veio a divorciar-se.

Calpúrnia Pisonis (nascida em 75 aC), filha de Lúcio Calpúrnio Piso Caesoninus, irmã de Lúcio Calpúrnio Piso "o Pontífice", a terceira e última mulher de Júlio César. Calpúrnia foi bisneta de um tenente de Lucius Cassius Longinus, cujo nome era Piso Lucius. O avô de Lúcio Calpúrnio Piso Caesonius foi morto pelo Tigurini durante as Guerras da Gália. César e Calpúrnia casaram-se em 59 aC. Calpúrnia era virgem, tinha 16 anos de idade. Nenhuma criança resultou desta união. No entanto, a filha de César, Júlia, que nasceu da sua anterior esposa Cornélia Cinila, era uma jovem neste momento. Supõe-se que Calpúrnia e Julia eram intímas amigas. Após a morte de César nos idos de Março  (15 de Março) de 44 aC., Calpúrnia entregou todos os documentos pessoais de César, incluindo as vontades e notas, e as posses mais preciosas a Marco António, um dos novos líderes do segundo triunvirato de Roma. Ela não se voltou a casar após a morte de César. De acordo com a tradição histórica, reflectida em algumas fontes antigas, Calpúrnia teve uma forte premonição (sonho) do assassinato do seu marido e tentou avisá-lo, em vão. Calpúrnia tentou convencer Decimus Junius Brutus Albinus, filho adoptivo de César, um dos principais conspiradores e assassino, para informar o Senado de que César estava doente, para evitar a sua morte, mas César recusou mentir e partiu para o senado. Durante o assassinato César, agonizante e surpreendido, terá exclamado "Tu quoque, Brute, filii mei! ...", Tu também, Bruto, meu filho! ...

Júlio César durante a ligação com Cleópatra de quem teve um filho, Sesarion, ainda era casado com Calpúrnia. Cleópatra residiu em Roma dois anos até à morte de Júlio César.
A obra mais conhecida deste drama foi escrita por Shakespeare em “Júlio César”.      

CLEÓPATRA


Cleópatra VII Thea Filopator; nasceu em Alexandria, em Janeiro do ano 70 a.C. ou Dezembro do ano 69 e faleceu por suicídio a 12 de Agosto? do ano 30 a.C.; foi a penúltima rainha, faraó, da dinastia Ptolemaica fundada por Ptolomeu I Sóter, general que governou o Egipto após a conquista daquele país por Alexandre o grande da Macedónia, uma família macedónica que reinou no Egipto a partir do ano 323 a.C.
Cleópatra era filha de Ptolemeu XII Neos Dionisos (Ptolemeu Auletes), filho de Ptolemeu IX Sóter II. Ptolemeu XII Neos Dionisos teve, possivelmente, seis filhos: Berenice IV e Cleópatra Trifena, que tomaram o controlo do Egipto durante a ausência do pai, dois filhos de nome Ptolemeu (Ptolemeu XIII e Ptolemeu XIV), Cleópatra VII e uma outra filha de nome Arsínoe.

O nome Cleópatra significa "glória do pai", Thea significa "deusa" e Filopator "amada por seu pai". Alguns historiadores usam uma numeração diferente para as princesas e rainhas egípcias de nome Cleópatra, por exemplo, Edwyn Robert Bevan (1870-1943) enumera-a como Cleópatra VI.
Cleópatra VII, uma das mulheres mais conhecidas e enigmáticas da história da humanidade e uma das governantes mais famosas do Egipto, tendo ficado conhecida somente como Cleópatra, ainda que tenham existido várias outras Cleópatras, além dela, mas que a história quase nunca cita. Nunca foi a única detentora do poder, co-governou sempre com um homem a seu lado: o seu pai, o seu irmão, com quem casaria mais tarde e, depois, com o seu filho Cesarion "pequeno César", o polémico filho de Júlio Cesar e o último faraó da Dinastia ptolemaica do Egipto, supostamente mandado matar por Octávio em Agosto de 30 a.C., com 16 anos, depois de batalha naval de Áccio ocorrida em 2 de Setembro de 31 a.C.  perto de Actium na Grécia, durante a guerra civil romana entre Marco António e Octaviano, o primeiro imperador romano e herdeiro de Júlio César.

Cesarion passou os seus dois primeiros anos, 46 a.C - 44 a.C., em Roma, onde ele e a sua mãe eram convidados oficiais do governo romano, ou seja, de Júlio César. Mas quando o ditador foi assassinado, em 15 de Março de 44 a.C., ambos tiveram que retornar, apressadamente, ao Egipto. Cleópatra, em todos os casos, os seus companheiros eram apenas reis titulares, mantendo ela sempre a autoridade de facto. Cleópatra foi uma grande negociante, estratega militar, falava e escrevia em seis idiomas, conhecia filosofia, literatura, artes gregas e era assídua frequentadora da biblioteca de Alexandria.
Em 42 a.C., Marco António, um dos triúnviros que governava Roma, após o vazio governativo causado pela morte de César, convocou-a para um encontro em Tarso para ela lhe responder sobre a ajuda que prestara a Cássio, um dos assassinos de César e, portanto, inimigo dos triúnviros. Cleópatra chegou triunfal, com grande pompa e circunstância, o que encantou e apaixonou Marco António. Passaram juntos o inverno de 42 a 41 a.C. em Alexandria. Ficou grávida pela segunda vez, desta vez com gémeos que tomariam os nomes de Cleópatra Selene e Alexandre Hélio. Quatro anos depois, em 37 a.C., Marco António visitou de novo Alexandria, quando se encontrava numa expedição contra os partos. Recomeçou então a sua relação com Cleópatra, passando a viver em Alexandria. É possível que se tenha casado com Cleópatra segundo o rito egípcio (uma carta, citada por Suetónio leva a crer nessa hipótese), ainda que nessa altura estivesse casado com Octávia Júlio Turino, a Jovem, irmã do triúnviro Octávio o futuro imperador Augusto. Então, Cleópatra deu à luz outro filho, Ptolomeu Filadelfo.
Depois da batalha naval de Accio, onde Marco António e Cleópatra foram completamente derrotados, Octávio entrou triunfante em Alexandria, desejava conhecer e contemplar aquela beleza que tanto deslumbrou os melhores generais romanos. Cleópatra tentou seduzir o conquistador Octávio, mas não conseguiu. Octávio tinha um carácter frio e distante.
Cleópatra ficou apreensiva quando soube que Octávio queria levá-la como espólio de guerra para Roma. Reuniu todos os seus tesouros
entregou-os a Cesarion para fugir para o porto de Berenice, no Mar Vermelho, provavelmente pretendendo fazê-lo chegar à Índia, pela Etiópia, onde encontraria refúgio e fechou-se no palácio. Correram rumores de que a rainha se suicidara. Marco António, enlouquecido, atravessou o peito com uma espada. Quando já agonizava, chegou o secretário de Cleópatra a dizer que ela estava viva. Ele ainda teve forças para chegar ao pé da sua amada, mas morreu nos braços dela. Cleópatra suicidou-se pouco depois, dizem com o veneno de uma áspide: (como o final de Romeu e Julieta de Shakespeare).
O imperador Octávio respeitou o último desejo da rainha e depositou o corpo dela ao lado do de Marco António, cujos túmulos foram recentemente encontrados no templo Taposiris Magna, a 50km a oeste de Alexandria.
Os outros três filhos de Cleópatra e Marco António foram levados para Roma, e Octávia, que fora mulher deste, de bom grado os recebeu e educou. Eram filhos daquele que fora a sua grande paixão.

SEPTÍMIA ZENÓBIA


Zenóbia (Tibur - hoje Tivoli -, 274) foi uma rainha de Palmira - hoje, chamada de Tadmor - era uma antiga cidade na Síria central, localizada num oásis a cerca de 210 km a nordeste de Damasco. Palmira tornou-se parte da província romana da Síria durante o reinado de Tibério (14 d.C. - 37 d.C.). A cidade continuou a desenvolver-se e a ganhar importância até que se tornou uma cidade livre, sob o império de Adriano, em 129.
Zenóbia depois da morte do marido, Odenato, reinou em nome do filho Vabalato e fez de Palmira uma brilhante capital do Médio Oriente. Foi vencida e reduzida ao cativeiro pelo imperador romano Aureliano (273).
O marido de Zenóbia era o nobre palmiriano Odenato, que em 258 tinha sido promovido ao posto de cônsul de Roma, por causa da sua campanha bem-sucedida contra a Pérsia a favor do Império Romano. Dois anos depois, Odenato recebeu do imperador romano Galieno o título de corrector totius Orientis (governador de todo o Oriente). Isto foi em reconhecimento da sua vitória sobre o Rei Sapor, da Pérsia. Por fim, Odenato autodenominou-se "rei dos reis". Esses êxitos de Odenato podem em grande parte ser atribuídos à coragem e cautela de Zenóbia.
No século III, a sua rainha, Septímia Zenóbia criou alguns embaraços ao império romano ao autoproclamar-se rainha do reino de Palmira mas, em 272, o imperador romano Aureliano capturou-a e levou-a para Roma. Depois de a expor, numa parada triunfal, acorrentada a cadeias de ouro, deixou-a retirar-se para uma vila em Tibur (hoje, Tivoli, Itália) onde continuou a ter um papel activo, politicamente, durante anos.
Zenóbia era de descendência árabe semita, afirmou a rainha Cleópatra VII (a) do Egipto, sua ancestral; outra sua antepassada era Drusilla da Mauritânia, neta de Cleópatra Selene, filha de Cleópatra VII e Marco António. Drusilla também reivindicou o parentesco de uma irmã de Hannibal e de um irmão da rainha de Cartago, Dido. O avô de Drusilla era o rei Juba II da Mauritânia. A ancestralidade paterna de Zenóbia pode ser traçada em seis gerações, e inclui Gaius Julius Bassianus, pai de Julia Domna. 
"Ela tinha pele morena . . . Os seus dentes eram brancos como pérolas, e os seus grandes olhos negros brilhavam como fogo, suavizados pelo mais atraente encanto. A sua voz era forte e harmoniosa. O entendimento brioso de Zenóbia era fortalecido e adornado pelo estudo. Não desconhecia o latim, mas era igualmente perfeita nas línguas grega, siríaca e egípcia." Foi assim que o historiador Edward Gibbon em 1737 louvou Zenóbia, a rainha guerreira da cidade síria de Palmira.

a) Não confundir com Cleópatra VII Thea Filopator, também denominada Cleópatra VI.

ORIANA FALLACI UMA MULHER A NÃO ESQUECER.


Oriana Fallaci nasceu em Florença a 29 de Junho de 1929. O seu pai, Edoardo, foi um activo antifascista partigiano e já aos 10 anos, Oriana estava envolvida com a Resistência Italiana, participando no movimento clandestino "Giustizia e Libertà". Durante a ocupação de Florença pelos nazis, o pai foi capturado e torturado na "Villa Triste", onde funcionava uma secção da Gestapo (polícia política alemã), também utilizada como cárcere e lugar de torturas, até à libertação de Florença, em Setembro de 1944. Pela sua participação na Resistência, Oriana foi condecorada, aos 14 anos, pelo Exército Italiano resistente.
Oriana iniciou a sua carreira de jornalista aos 16 anos, trabalhando como colaboradora de jornais locais e posteriormente como enviada especial da revista semanal L'Europeo, fundada em 1945. 

Em 1967 trabalhou como correspondente de guerra para L'Europeo no Vietname. Retornou ao país por 12 vezes em 7 anos, para narrar a guerra, sem fazer concessões partidárias, nem aos comunistas, nem tampouco aos americanos ou sul-vietnamitas. As suas experiências de guerra estão reunidas no livro "Niente e così sia" publicado em 1969.
Ao longo de sua carreira realizou importantes entrevistas com algumas das mais importantes personalidades do século XX, dentre as quais se destacam: Henry Kissinger, o Ayatollah Khomeini, Lech Wałęsa, Willy Brandt, Zulfikar Ali Bhutto,Walter Cronkite, Muammar al-Gaddafi, Federico Fellini, Sammy Davis, Jr., Deng Xiaoping, Nguyen Cao Ky, Yasser Arafat, Indira Gandhi, Alexandros Panagoulis, Wernher von Braun, o Arcebispo Makarios, Golda Meir, Nguyen Van Thieu, Haile Selassie e Sean Connery.

Sofrendo de uma doença incurável, que chamou de "Alien" e atribuída às exalações de gases tóxicos provenientes dos poços petrolíferos explodidos por Saddam Hussein, que tinha respirado no Kuwait, Oriana Fallaci faleceu a 15 de Setembro de 2006, em Florença, numa casa de repouso de "Santa Chiara" com a idade setenta e sete anos.
http://www.italialibri.net/autori/fallacio.html

A LIBERDADE DE PENSAR E O DIREITO DE SER MULHER


Hipácia de Alexandria foi uma matemática e filósofa neoplatónica, nascida aproximadamente em 355 e assassinada em 415. Hipácia era uma filósofa de origem pagã num meio conflituoso predominantemente cristão. Os neoplatónicos não acreditavam no mal, negavam que este pudesse ter uma real existência no mundo, uma visão optimista em crer que tudo era bom, em última instância. Era dizer apenas que algumas coisas eram menos perfeitas que outras. O que outros chamavam de mal, os neoplatónicos chamavam de imperfeição, de "ausência de bem"; acreditavam que a perfeição humana e a felicidade poderiam ser obtidas neste mundo e que ninguém precisaria esperar uma outra vida redentora como na doutrina cristã. Perfeição e felicidade (uma só e a mesma coisa) poderiam ser adquiridas pela devoção à contemplação filosófica. Situando Hipácia na história decorria o tempo em que era imperador de Roma Flávio Honório (395/423), uma peça chave do fim do império romano do ocidente.
Hipácia era filha de Téon (335?405), um renomeado filósofo, astrónomo, matemático, autor de diversas obras, professor e último director da biblioteca de Alexandria, contemporâneos da biblioteca e do célebre farol da Ilha de Pharos cuja funcionalidade é ainda uma incógnita para muitos investigadores cujas informações da sua arquitectura e funcionamento terão desaparecido nos vários atentados a tudo o que representava conhecimento tido como origem pagã, no tempo das convulsões cristãs e judaicas. Cerca de 560 anos antes da morte de Hipácia a estátua do Colosso da Ilha de Rodes tinha desaparecido no golfo de Rodes no mar Egeu em consequência de um violento terramoto, a mesma zona sísmica que mais tarde, em 1302 poria fim à imponência do farol de Alexandria submerso no mediterrâneo até ser descoberto em 1994.
Hipácia estudou na Academia de Alexandria, onde devorava conhecimento: matemática, astronomia, filosofia, religião, poesia, artes, oratória, retórica, álgebra. Era na Ágora, espaço público da pólis, destinado à discussão política e à apresentação das artes onde ela assistia e discutia as suas ideias sobre astronomia heliocêntrica. Hipácia foi atacada em plena rua por uma turba fraccionária de cristãos enfurecidos, foi arrastada pelas ruas da cidade até uma igreja, acusada de bruxaria onde foi cruelmente torturada até à morte. Depois de morta, o corpo foi lançado a uma fogueira, tudo isto aconteceu pouco tempo depois de Orestes, prefeito da cidade, ter ordenado a execução de um monge cristão chamado Amónio, acto que enfureceu o bispo Cirilo e seus correligionários. Devido à influência política que Hipácia exercia sobre o prefeito, é bastante provável que os fiéis de Cirilo a tivessem escolhido como uma espécie de alvo de retaliação para vingar a morte do monge, neste período em que a população de Alexandria (pagãos, judeus e cristãos) era conhecida pelo seu carácter extremamente violento.
 Representação de Hypatia pintura de Charles William Mitchell - 1885

AS ORIGENS LATINAS


A Antiguidade Clássica é o termo utilizado para caracterizar um longo período da história cultural centrado no Mar Mediterrânio, compreendendo a interligação da Grécia Antiga e a Roma Antiga, cuja cultura foi absorvida pelos povos bárbaros que invadiram Roma e a transferiram para os países que na actualidade são a Europa latina que inclui principalmente a Itália, a França, Portugal (a), a Roménia e a Espanha, como também pequenos Estados como S. Marino, o Vaticano, Andorra, a Moldávia e Mónaco. Pode-se também incluir as regiões francófonas da Bélgica (Valónia), Luxemburgo e Suíça, como também o Tessino (italófono) na Suíça situado no sul do país, e incluindo as cidades de Lugano e Locarno e regiões em que usam a língua Romanche (b) também na Suíça. A maior parte destes países é membro da União Latina.
A Antiguidade Clássica é convencionada, o seu início, com o primeiro registo da poesia grega de Homero (século 8-7 aC.), continuando através do aparecimento do Cristianismo e o declínio do Império Romano do Ocidente (século V da nossa era). Teve o seu término com a dissolução da cultura clássica e o fim da Antiguidade Tardia (dC. 300-600), iniciando as Idades Médias (dC. 500-1000), respectivamente, Alta Idade Média e Baixa Idade Média.
Aquele período da história cobriu várias culturas e períodos." A Antiguidade Clássica" tipicamente refere-se à visão idealizada, como disse Edgar Allan Poe, "A Glória que foi a Grécia, a Grandeza que foi Roma!"
A civilização dos antigos gregos tem influenciado a língua, política, sistemas educacionais, filosofia, ciência, arte e arquitectura do mundo moderno, abasteceu a Renascença na Europa Ocidental e ressurgiu durante vários movimentos neoclássicos nos séculos XVIII e XIX.
A arte e cultura clássicas, muitas vezes denominadas como Antiguidade Clássica, constituem o estilo artístico e cultura predominantes na Grécia Antiga entre os séculos VI e IV a.C. e a sua herança continuada pelos diversos períodos político-culturais da Roma Antiga. Na Antiga Grécia, o estilo clássico veio substituir o arcaico, que era baseado na tradição religiosa pré-democrática e que tinha por característica imagens geometrizadas e pouco naturalistas. Com o advento de uma sociedade mais laica e ligada ao pensamento filosófico, os artistas tiveram que buscar uma solução que ligasse o divino - a arte ainda era encomendada para representar deuses e motivos religiosos - ao humano, novo campo de interesse ligado à política democrática da pólis e de pensadores como os sofistas e os filósofos, preocupados em compreender a relação entre o homem e o universo. Nesse contexto, construíram uma estética naturalista mas idealizada, baseada em cânones que eram a média das características físicas das pessoas mais belas.

Na Antiguidade greco-romana não se vislumbrava qualquer diferenciação entre arte e técnica, o mesmo é dizer, entre artista e artesão. A teknê grega, bem como a ars latina referiam-se não só a uma habilidade, a um saber fazer, a uma espécie de conhecimento técnico, mas também ao trabalho, à profissão, ao desempenho de uma tarefa. O técnico era aquele que executava um trabalho, fazendo-o com uma espécie de perfeição ou estilo, em virtude de possuir o conhecimento e a compreensão dos princípios envolvidos no desempenho. Sempre associada ao trabalho dos artesãos, a arte era susceptível de ser aprendida e aperfeiçoada, até se tornar uma competência especial na produção de um objecto. Por não resultarem apenas de uma competência ou mestria obtidas por aprendizagem, mas sobretudo do bafejo de um talento pessoal, a composição musical e a poesia não faziam parte da arte, eram emocionais.
Predominaram na época os nus masculinos e a representação de atletas, como Hermes e Dionísio de Praxíteles ou o Discóbolo. Fídias foi um grande expoente da arte do período, supervisionando o entalhe das esculturas que adornavam o frontão do Pártenon, em Atenas. Chegaram à posteridade principalmente exemplares de escultura, mas Plínio, o Velho, cita diversos exemplos de pinturas desse período. O mármore e o bronze eram os materiais preferidos, e foi nessa época que foi criada a técnica de moldagem em bronze chamada cera perdida.

Os conceitos de arte e cultura clássicos incluem a literatura clássica ou greco-romana: as diversas formas da literatura grega e a literatura latina (como a poesia, o teatro, a historiografia - historiografia clássica e a filosofia - filosofia grega); e no âmbito da arte não apenas as denominadas belas artes, mas também todas as artes menores  (estendendo-se por vezes a toda a cultura material). Também formam parte da civilização clássica ou civilização greco-romana as demais manifestações da sua cultura, crenças (mitologia clássica - mitologia grega, mitologia romana) e a vivência cultural da vida quotidiana  (costumes da Antiga Grécia, costumes da Antiga Roma), a economia, sociedade e organização política, militar e religiosa.
(a) – Portugal que vai perder essa etimologia linguística com o novo acordo ortográfico estabelecido com os países de origem lusófona, com maior incidência brasileira.
 
(b) A língua romanche, também chamada de reto-romanche ou rético, é uma das quatro línguas nacionais da Suíça, conjuntamente com a língua alemã, a língua italiana e a língua francesa. Trata-se de uma língua neolatina do ramo ocidental, que se acredita descender do latim vulgar falado pelos romanos que ocuparam a área na Antiguidade.

O pensamento de Émile Durkheim e a anomia no século XXI


Durkheim (1851/1917) formou-se em Filosofia, porém toda a sua obra e vida é dedicada à Sociologia. O seu principal trabalho é na reflexão e no reconhecimento da existência de uma "Consciência Colectiva". Ele parte do princípio que o homem seria apenas um animal selvagem que só se tornou humano porque se tornou sociável, ou seja, foi capaz de aprender hábitos e costumes característicos de seu grupo social para poder conviver no meio deste.
A este processo de aprendizagem, Durkheim chamou de "socialização", a consciência colectiva seria então formada durante a nossa socialização e seria composta por tudo aquilo que habita nas nossas mentes e que serve para nos orientar como devemos ser, sentir e comportar. A esse "tudo" ele chamou de "factos sociais", e disse que esses eram os verdadeiros objectos de estudo da sociologia.
Nem tudo o que uma pessoa faz é um facto social, para o ser tem que atender a três características: generalidade, exterioridade e coercitividade. Isto é, o que as pessoas sentem, pensam ou fazem independentemente das suas vontades individuais, é um comportamento estabelecido pela sociedade. Não é algo que seja imposto especificamente a alguém, é algo que já estava lá antes e que continua depois e que não dá margem a escolhas.
O mérito de Durkheim aumenta ainda mais quando publica o seu livro "As regras do método sociológico", onde define uma metodologia de estudo, que embora sendo em boa parte extraída das ciências naturais, dá seriedade à nova ciência. Era necessário revelar as leis que regem o comportamento social, ou seja, o que comanda os factos sociais.
Nos seus estudos, os quais serviram de pontos expiatórios para o início de debates, o que perdurou praticamente até o fim de sua carreira, ele concluiu que os factos sociais atingem toda a sociedade, o que só é possível se admitirmos que a sociedade é um todo integrado. Se tudo na sociedade está interligado, qualquer alteração afecta toda a sociedade, o que quer dizer que se algo não vai bem em algum sector da sociedade, toda ela sentirá o efeito. Partindo deste raciocínio ele desenvolve dois dos seus principais conceitos: Instituição social e Anomia.
A instituição social é um mecanismo de protecção da sociedade, é o conjunto de regras e procedimentos padronizados socialmente, reconhecidos, aceites e sancionados pela sociedade, cuja importância estratégica é manter a organização do grupo e satisfazer as necessidades dos indivíduos que dele participam. As instituições são, portanto, conservadoras por essência, quer seja família, escola, governo, polícia ou qualquer outra, elas agem fazendo força contra as mudanças, pela manutenção da ordem.
Durkheim deixa bem claro na sua obra o quanto acredita que essas instituições são valorosas e parte em sua defesa, o que o deixou com uma certa reputação de conservador, que durante muitos anos causou antipatias. Mas Durkheim não pode ser meramente tachado de conservador, a sua defesa das instituições baseia-se num ponto fundamental, o ser humano necessita de se sentir seguro, protegido e apoiado. Uma sociedade sem regras claras, num conceito do próprio Durkheim, "em estado de anomia", sem valores, sem limites leva o ser humano ao desespero. Preocupado com esse desespero, Durkheim dedicou-se ao estudo da criminalidade, do suicídio e da religião. O homem que inovou construindo uma nova ciência inovava novamente preocupando-se com factores psicológicos, antes da existência da Psicologia. Os seus estudos foram fundamentais para o desenvolvimento da obra de outro grande homem: Freud.
Basta uma rápida observação do contexto histórico do século XIX, para se perceber que as instituições sociais se encontravam enfraquecidas, havia muito questionamento, os valores tradicionais eram rompidos e novos surgiam, muita gente vivendo em condições miseráveis, desempregados, doentes e marginalizados. Ora, numa sociedade integrada essa gente não podia ser ignorada, porque de uma forma ou de outra, toda a sociedade sofreria as consequências. Aos problemas que observou, classificou como patologia social, e chamou aquela sociedade doente de "Anomia". A anomia era a grande inimiga da sociedade, algo que devia ser vencido, e a sociologia era o meio para isso. O papel do sociólogo seria, portanto, estudar, entender e ajudar a sociedade.
Na tentativa de "curar" a sociedade da anomia, Durkheim escreve "Da divisão do trabalho social", onde discorre sobre a necessidade de se estabelecer uma solidariedade orgânica entre os membros desta. A solução estaria em seguir o exemplo de um organismo biológico, onde cada órgão tem uma função e depende dos outros para sobreviver. Se cada membro exercer uma função específica na divisão do trabalho da sociedade, ele estará vinculado a ela através de um sistema de direitos e deveres, e também sentirá a necessidade de se manter coeso e solidário aos outros. O importante para Durkheim é que o indivíduo realmente se sinta parte de um todo, que realmente precise da sociedade de forma orgânica, interiorizada e não meramente mecânica.

UTOPIA


Utopia tem como significado o conceito de civilização ideal, podendo referir-se a uma cidade ou a um mundo imaginário no futuro ou no presente. A palavra utopia tem origem dos filósofos gregos radicais, “ou” não “tópos” lugar, “não-lugar” ou lugar não existente mas que pode existir e, também, do latim tardio utopia, que Thomas More decidiu escrever sobre um lugar novo e puro onde existiria uma sociedade perfeita ou país imaginário em que tudo está organizado de uma forma superior. O utopismo é um modo optimista de ver as coisas como gostaríamos que elas fossem. Muitos autores, como Arnhelm Neusüss (sociologia do conhecimento), têm defendido que as utopias modernas são essencialmente diferentes das suas predecessoras. Outros dizem que em rigor as utopias só se dão na modernidade e chamam cronotopias ou protoutopias às utopias anteriores à obra de More. Desde esta perspectiva, as utopias modernas estão orientadas para o futuro. Assim as utopias expressam uma rebelião frente ao dado existente na realidade e propõem uma transformação radical, que em muitos casos passa por processos revolucionários. O sociólogo Karl Mannheim considera utopia como um plano de mudança social; critica a definição de "sonho irrealizável", pois só podemos saber se um sonho é ou não irrealizável depois de ter sido vivido, posto à prova. As utopias têm derivações no pensamento político, como por exemplo nas correntes socialistas ligadas ao marxismo e ao anarquismo, literário e incluindo cinematográfico através da ciência e ficção social. Agostinho da Silva dizia que é necessário ver a ideia do futuro não como muita gente a vê, como uma coisa impossível de se realizar, mas sobretudo, como uma coisa possibilíssima de ser ultrapassada de tal maneira que nós nem pudéssemos entender.

SURREALISMO


O Surrealismo
foi um movimento artístico e literário surgido primeiramente em Paris nos anos 20, inserido no contexto das vanguardas que viriam a definir o modernismo no período entre as duas Grandes Guerras Mundiais. Reúne artistas anteriormente ligados ao Dadaísmo ganhando dimensão internacional. Fortemente influenciado pelas teorias psicanalíticas de Sigmund Freud (1856-1939), o surrealismo enfatiza o papel do inconsciente na actividade criativa. Um dos seus objectivos foi produzir uma arte que, segundo o movimento, estava sendo destruída pelo racionalismo. O poeta e crítico André Breton, francês da Baixa Normandia (1896-1966) é o principal líder e mentor deste movimento.
Mário Cesariny de Vasconcelos 
(Lisboa, 9 de Agosto de 1923 a 26 de Novembro de 2006) foi pintor e poeta, considerado o principal representante do surrealismo português. É de destacar também o seu trabalho de antologista, compilador e historiador (polémico) das actividades surrealistas em Portugal.


UTOPIA


Não quero... Não!
Não quero “ismos” nem “istas”,
Nem outras teorias idealistas...
Nem bandeiras ou cadeiras,
Nem tachos…nem panelas,
Nem cores, nem símbolos.
Não quero cor nenhuma…!
Nem branco nem preto…
Quero o arco-íris.

Não quero pensamentos teóricos,
Cáusticos, filosóficos ou Teológicos,
Perfeitos ou matemáticos,
Universais ou cabais.
Apenas quero ser livre.
Sem grades nas janelas.
Torres ou muros...  
Nem grilhetas ou sentinelas.

Quero ter ânimo…
Livre... Como tu, Liberdade!
Desobrigar-me de vez
Da teia que me prende.
Em selva de betão armado,
Oblíqua, preconcebida,
Com fronteiras de pedra…

Quero ser simples assim:
Apenas corcel solto, alado.
Viver amor, acompanhado...

Com esta lira que vos roço,
Desatento, sem dó…
Canto a utopia da liberdade!

Sem ser o que querem.
Quero ser como sou
Sem ser como era!

Conjecturo o Universo,
Distante… Vigiando,
Da janela do meu quarto,
Única fresta de raio de luz,
Que penetra no engano,
Vejo o Mar... E o Sol a cair,
No horizonte... E na noite,
Que se perpetua para sempre…
Para além do dia circundante.        
Eternamente quero-te Liberdade…

José Douradinha (Setembro 2010)